Espera

Na pétala da rosa

No botão,
No fone,
Na orelha.

Cercando
A mancha
de tinta,
Agora no jeans.

Passeiam
No bolso.

Entre
Cachos castanhos, caminhos.

Rompem o lacre
Do pote de iogurte
E se lambuzam na língua morna.

O cheio e o vazio

Como todo esbarrão pode render uma boa crônica, comecei a reparar nos esbarrões que vivem acontecendo em supermercados.

Os carrinhos cheios de mercadorias sempre vão de encontro à outros carrinhos e também às pontas de gôndolas. Porém, eu via o espetáculo se formar realmente quando um dos carrinhos acertava sem maldade uma das três mil, duzentas e setenta latinhas de cerveja de uma pilha no maior corredor do mercado em que trabalhei por dezesseis dias. A cachoeira escorria até o chão, formando uma pequena poça de água com um pouco de espuma.

Toda vez que isso acontecia, o desenrolar era sempre o mesmo. Um funcionário do setor de bebidas ia até o balcão de atendimento, onde uma moça de modos e aparência incomuns, além de uma voz que não parecia sair dela, interrompia a música e anunciava pelo microfone que uma letra e um número juntos deveriam comparecer ao setor de bebidas. Rapidamente, a moça da limpeza aparecia para secar a poça e tudo voltava ao normal. Até outra latinha ser acertada. E isso vivia acontecendo.

Detalhe, esses carrinhos que esbarravam nas latinhas não eram de clientes, eram dos rapazes que passam o dia enchendo as prateleiras enquanto os clientes as esvaziam, que, por sua vez, enchem os carrinhos de compras para depois esvaziá-los, enchendo o carro com as sacolas brancas, para depois esvaziá-las em casa, enchendo o armário, para ao longo dos dias, esvaziá-lo e ir novamente ao supermercado, nesse ciclo de vida do cheio e do vazio.

As prateleiras nunca ficam completas por mais de um minuto e os funcionários do supermercado vivem dessa tarefa constante de enchê-las. Repetem todo dia os mesmíssimos movimentos e sempre esbarram nas pilhas de cerveja por puro descuido de quem trabalha há sete anos no mesmo supermercado, na mesma função, colocando os dias num piloto automático, mal vendo a hora de ir embora.

Lá em casa

O inferno e o paraíso
A parabólica e o mato
A matemática e a tia
A tesoura e o brilhinho
O bico e o pescoço
O pedaço e a birra
O bilhete e o medo
A melodia e o joelho
O enjoo e o colo
A cola e o sabor
O saber e o despertador
O perfume e o chão
O xis e a areia
A abelha e a Fanta
A festa e o laranja
A janela e a bola
A boca e o segredo
O céu e a escada
O espelho e o chão
A chuva e a televisão
O telefone e o aniversário
A versão e o inverso
O inferno e o paraíso.

Sorte na telecomunicação

O telefone e o encontro
O conto e a língua
O link e o esquecimento
O espelho e a escolha
A espera e o sms
O isso e a exclamação
O clarão e o sorriso
O assunto e o arrepio
O arrependimento e a noite
O telefone e o encontro.

Silêncio

A palavra pairando
Por entre a fumaça preta e pesada
Sem ninguém para capturá-la

A palavra camuflada
Num cantinho do quarto
Coberta de cabelo e pó

A palavra boiando
entre pequenas bolhas da espuma branca
No copo cheio de cerveja quente

Dopamina


Ouça

Minha unha encravada
Minha cabeça pulsando sem parar
Meu calcanhar in blood
Meus olhos com areia grossa

Aqui

Até minha barriga ronca
Até minha mão treme
Até meu cotovelo racha
Até meu cabelo cresce

Comigo

Meu coração sem ritmo
Minha espera sem nem aviso
O ponto no buraco que era o meu siso
A minha boca se encher de água
Porque saem as letras pastosas do seu nome, dentro dum grito.

Viagem

Vestidos vermelhos, verdes, floridos
Faces faiscantes e febris
Sanfona fértil como farol
De serás e sim
E naquela voz ouvi um visco
De sol, vento e fitinha do Senhor do Bonfim.

Ao sol

- De quê que é?
- De manga. Por que, você quer?
- Não, só queria saber mesmo.
- Tem certeza? Se quiser eu te dou uma chupada, tá bem gostoso, ainda mais com esse calor.
- Não, obrigado.
- Eu que fico agradecida. Eu não queria dar mesmo, tá muito gostoso.
- Então agora eu quero.
- Mas agora eu não quero dar.
- Vai, só um pouquinho. Já tá derretendo tudo.
- Não tem problema, eu vou lambendo.
- Vai dar dor de barriga.
- Melhor que dor de cotovelo.

Pensamentos

Pensei numa parceria pneumática
De papel e prosopopéia.

Pensei num paquiderme na platéia,
A perder piolhos com proporção de pedras.

Apalpei projetos pictóricos de parede e pão
Sem ponto, capitão ou tropo.

Tempo-Vento

Um velho amigo meu me dizia
Maldito é o tempo,
Que sempre torna tudo tarde.
Transforma alegria em esquecimento.
Consegue trazer o dia
E ao calor do vento,
Transforma com sádica ingenuidade,
O belo em pura noite de mau tempo.

Ainda assim, não quebrei o relógio.

Bolo de Cenoura

Ingredientes:

1 xícara de Mãe
1 xícara de Pai
1 pitada de Sábado à tarde
3 colheres de 5 anos de idade
1 cx de tapete no meio da sala e móveis afastados
150 ml da música Dancing Queen do Abba

Modo de preparo:

Misture todos os ingredientes por toda tarde até cair a noite.
Guarde na memória.
Sirva bem quente, sempre que sentir saudade.

Domingo

A campainha tocava sempre às 10 da manhã, fosse dia coberto de sol quente ou de chuva escorrendo com vento frio.

Minha tia sempre chegava no mesmo horário e, como não era comum recebermos outras visitas, a certeza de que era ela se confirmava sempre.

De nome Maria da Glória, pra minha mãe (a irmã da tia) era Glorinha e pra mim Tia Glorinha. Combinava mais com ela, porque Maria da Glória era um nome muito soberano pra uma mulher resignada e tímida como ela.

Trabalhava em casa de família, como ela dizia, no Alto da Lapa e tinha folga somente de domingo, quando vinha pra casa, nos visitar e descansar. Falava muito pouco, mas eu sei que ela trabalhava muito, dormia sempre bem tarde, para terminar os afazeres e acordava bem cedo pra recomeçá-los.

Divorciada, tinha vindo pra São Paulo e deixado sua única filha viva em Minas Gerais, com a minha Avó. Havia perdido 3 filhos na gestação e 2 recém-nascidos.

Quando ela chegava, eu corria pra abrir o portão e abraçá-la.

Sempre trazia chocolate pra mim que parecia ganhar um sabor especial de domingo, quando ela tinha o olhar de satisfação e conforto, sem dizer nada.

Lápis de Cor

Na porta,
Cesto de gatinhos

No lápis,
Duas mãos esquerdas

No nariz,
Fumacinha de bolo

Na memória,
Linhas da mão

No muro,
Pés após pés

Na enxurrada,
Barquinho de papel

No algodão,
Broto de feijão

No sofá,
Cavalos de nuvens

Na calçada,
Monalisa de giz

No vestido,
Bolo e refrigerante

Deixa eu ver na minha mão?

Chuva no Quintal

Era correnteza, dessas de levar minhoca, tatu bola e filhote de lagartixa esquecido pela família.

Sua nascente era a escada de concreto com degraus altos que ligava o portão branco ao quintal com piso de cerâmica laranja que um dia foi vermelha.

Gotas de gelo cobriam todo o quintal. Elas vinham do céu como um bônus extra no pacote chuvoso feito de ventania, trovões, relâmpagos e falta de energia elétrica.

O cachorro tava lá.

Tentava desviar de um e outro gelinho que cuidadosamente acertava seu dorso, causando uma dor de fazer até lesma gemer.

Desesperado arranhava a portinha de madeira que dava para a varanda, enquanto apontava com o olhar de desconsolo para sua casinha despedaçada pelo temporal.

Eram gemidos, gritinhos, latidos, uivos e ninguém em casa.

Fotografia

Mania sim
De sorriso de rio, frio de abril e jardim de tinta.

Mania sim
De Paris sem motivo, elixir de amigo e colorido de saliva.

Mania sim
De estilo lítio, destino de clarim e delírio de mim.

Mania sim
De rima febril, alegria de psiu e fim de grito.

Mania sim
De abrigo no Olimpo, rainha da ilha e chantilly no nariz.

Sim, mania.

Feito de Manga, Abacaxi e Goiaba

Tenho uma máquina que não lava louças, nem roupas, mas facilita muito minha vida. Faz frutas de todos os tipos e em todas as épocas. As que mais gosto são abacaxi, manga e goiaba. Basta pegar a semente da fruta ou a muda e colocar na parte superior da máquina que contém uma tampa. Depois fecho e aguardo 1 minuto. E na parte inferior sai a fruta prontinha.

Quando aprendi como as plantas nascem e crescem, deixei de acreditar nisso.

Nascimento

Num cantinho aguardando.
Desgraça ou graça?
Casar?
Calor amarelo, gagueira amarela, e amarelo engasgo.
Num cantinho crescendo.
Graça.

O almoço

Naquela manhã de sábado, minha mãe tinha ido fazer compras na Cidade e para minha alegria, tinha me levado para passar o dia com meus primos na casa da minha tia.
A casa da minha tia era bem grande. Naquela época, bem maior que a nossa.
O quintal da rede começava após a escada do portão da rua e terminava em outra escada que dava para a casa de baixo, habitada por uma família chamada pelo nome estranho de Inquilinos.
Na sala, o sofá e a estante de madeira bem escura ornada pelo televisor Telefunken quase sempre desligado, eram iluminados pela luz colorida do sol que vinha através da vidraça pintada de verde, azul, vermelho e amarelo.
A cozinha vinha a seguir, com os móveis e eletrodomésticos organizadinhos.
Os quartos eram muitos. O quarto da minha tia e do meu tio, o quarto da minha prima e do meu primo e o quarto para os brinquedos. Brinquedos estes que, exceto quando eram importunados por algum hóspede que vinha de Minas, também tinham seu próprio quarto para descansar.
A casa tinha também outro quintal onde moravam as jandaias comedoras de goiaba e banana. Minha tia chamava esse quintal de lavanderia.
No andar de cima, ficava a garagem onde funcionava a oficina do meu tio, dessas de consertar coisas eletrônicas.
Tirando o banheiro, que não me lembro como era, só faltou contar sobre o calabouço das tranqueiras – um quartinho escuro com passagem secreta para o quarto dos meus primos.
Apesar de enorme, a casa era a mais limpa de todas as casas de todos os parentes que eu conhecia. A gente tinha até que trocar de calçado para entrar na casa. Ao lado do tapetinho da sala tinha uma fileira de havaianas limpinhas para uso exclusivo das visitas.
Dessa vez, logo que cheguei à sala da minha tia, senti um cheiro estranho. Não estranho de desconhecido, mas sim estranho de intruso. Um cheiro que não lembrava nem de longe o cheiro de Veja Multi-uso de sempre da casa.
Um cheiro não, um fedor.
Ouvi a panela de pressão gritando na cozinha, a contagem regressiva para o momento do almoço. E sem precisar perguntar, constatei que o prato principal seria a tão temida buchada.
Eu sentia ânsias só com o cheiro.
Lá em casa, apesar de eu ter participado de vários almoços com a presença dela, sempre tive meu direito respeitado e nunca recebi em meu prato um pedacinho sequer. Mas, na casa da minha tia eu estava à mercê da buchada.
Não contei sobre o meu problema com aquele alimento, pois senti medo de desapontar a família reunida em volta da mesa, rezando para agradecer pelo alimento do dia. Principalmente, porque minha mãe não me levaria mais para passear na casa da minha tia, devido a tamanha vergonha.
Meu estômago se exasperava e eu disfarçava a todo custo.
Coloquei o primeiro pedaço na boca.
...
Não me recordo como recobrei a consciência. Só lembro que vi o pedaço de buchada ainda intacto imóvel na toalha de mesa. Minha tia alvoroçada me mandou engolir logo um pouco de suco de laranja para melhorar, enquanto apressadamente disse que iria fazer uma omelete para eu não ficar sem almoçar.

Feijão

A mesa ficava encostada na parede azulejada. Era redonda, tinha quatro cadeiras e estava coberta por uma toalha vermelha e amarela.

Cheguei com o pacote fechado e a bacia verde, para iniciar a solenidade.

Descobri a mesa, puxando minuciosamente a toalha, revelando sua superfície todinha azul. Deixei o azul suficiente para a ação.

Abri o pacote e espalhei bem os grãos.

Comecei escolher os pequenos e feios, mas eram os maiores e brilhantes que chamavam mais minha atenção.

Demorei uma hora para terminar a escolha.

Ao fim, coloquei os grãos escolhidos na bacia e inundei-os com a água.

Ainda sim, ficaram dois feijões a boiar.

Zapeando Canais

A lua e o céu
O mel e a boca
A sopa e a mosca
O moço e a alegria
A alergia e a gata
A faca e o caçador
O babador e o biquíni
O bicão e a asa
O vaso e a hemorragia
O hematoma e o futebol
O ebola e o avião
O corrimão e o idoso
O ruído e a assombração
A associação e o símbolo
A sílaba e o sim
A sujeira e o Omo
O pombo e o casamento
A casa e a tinta
O tostão e a aposta
O poste e a tensão
O tesão e o tesinho
O ninho e a maternidade
A cidade e a ciclovia
A polícia e o depoimento
O apartamento e a visita
À vista e o desconto
O conto e o sapatinho
O sabiá e o belo
O elo e a evolução
A canção e a rua
A lua e o céu.

Incêndio

Frases, frestas, fumaça e fôlego.
Fila, fogo e gritos em furacão.
Fuligem e ferimentos.
Fim.

Degraus

Peguei a mochila e bati o portão de casa.

Comecei a correr até chegar na escada gigante que ligava a minha rua à de baixo. Desci correndo tanto e tanto, que a cada salto eliminava três degraus.

Depois de oitenta e oito degraus cheguei à rua de baixo. Era estreita, onde quase não passava carro e nunca passava ônibus. Nela havia poucas casas. O resto era capim, pés de pêssego e de ameixa.

Além da paisagem, tinha o menino alto de cabelos vermelhos e curtos que todos os dias ficava em frente ao seu portão, esperando só pra me ver passar.

Eu sempre fingia que não era comigo, principalmente quando ele, apressadamente, beijava a palma da sua mão e lançava um beijo pra mim.

Mesmo com a minha pressa e desdenho, o seu beijo chegava. Eu sentia na minha alma de recém completos oito anos de idade uma mistura de medo e vontade que amoleciam minhas pernas e quase me faziam parar.

Enquanto as lições da cartilha iam chegando ao fim, a grande velocidade dos meus passos continuava também.

Até o dia em que parei em frente ao menino.

Ele se curvou diante de mim com um sorriso mudo. Eu, na ponta dos pés, dei-lhe um rápido beijo no rosto, desses que quase não tocam o beijado.

Saí sem olhar pra trás e peguei velocidade novamente, compensando a parada.

No outro dia, o garoto não estava em frente ao portão. A primeira vez que não me esperava em oito meses.

Fiquei calada durante toda a aula e na volta pra casa, fui bem devagar. Cheguei até parar em frente ao seu portão por alguns instantes, mas lá, ele não estava.

Levei oito anos para subir toda a escada.

Quando cheguei ao meu portão, os raios do sol se pondo faziam o vermelho de seus cabelos refletir.

Ele me esperava.

A transbordar

Um copo cheio de água. Água potável, com potencial pra vida, mas água parada.

Até que um comprimido efervescente invadiu esse copo, com sua presença laranja-festa e suas milhões de bolhas de gás, que fizeram transbordar a vida onde existia o silêncio.

O copo sentiu como se estivesse, pela 1ª vez, mergulhando numa piscina de bolinhas ou ficando embaixo de uma nuvem de balões de gás a subir.

Este momento durou 58 segundos. Pouco para a vida de um copo, mas suficiente para deixar sua água colorida pra sempre.

Por seis minutos

Eram seis minutos até a próxima estação, onde desceria.

Sentiu o calor sufocante, o odor que lembrava feijão do almoço amanhecido na pia e os vinte cotovelos que o acertavam ritmicamente a cada trinta segundos. Teve certeza que a viagem duraria seis vezes mais.

Tentou se projetar para outro espaço, mas voltou ao vagão ao perceber que seu pé era esmagado por outros três pés desconhecidos. Tinha o pensamento e o corpo paralisados, não tinha jeito de sair de lá.

Apenas uma alteração, sentiu. Era uma teimosa mão que tentava abrir o zíper da sua mochila, aproveitando a ocasião.

Por um centímetro de vidro da porta, reconheceu o edifício azul que ficava ao lado da estação onde desceria.

A porta abriu, jogando o garoto pra fora do vagão, bem na hora que a mão quase pegava sua carteira.

Poema Alto-Falante

Pra falar
Da chuva de guarda-chuvas abertos;

Pra falar
Do elefante sem ar a um metro da margem;

Pra falar
Das lixeiras coloridas e irmãs;

Pra falar
Do cachorro em frente à maquina de frangos;

Pra falar
Do jornal de ontem na mão trêmula.

(Até falar)

Cena de Consultório

- Nossa! Seu dente tá bem inflamado. Vai ter que arrancar.
- Sério? Mas por quê?
- Porque na posição em que ele nasceu, sempre estará propenso a inflamações e voltará a doer.
- Bom, fazer o que, né?
- Vamos marcar o dia! Na próxima quarta-feira, tudo bem?
- Tudo bem.
- Você tomando esses remédios que lhe receitei, na quarta-feira, seu dente não estará mais inflamado e faremos o procedimento.

Saí do consultório meio desolada. Não queria arrancar meu dente, ele era meu e deveria continuar comigo. Além disso, já tinha ouvido tantas histórias tensas sobre dentes do siso teimosos que não queriam sair da boca de seus donos.

Como era sexta-feira, tive bastante tempo de contar sobre o evento da próxima quarta às pessoas e em troca, cada uma delas me deu uma história pior do que a outra, sobre dente do siso.

- Preparada?
- Então... decidi que não vou mais arrancar o dente.
- Como assim? Por quê?
- Porque eu ouvi muitos depoimentos de pessoas que arrancaram o dente do siso e que só não morreram por milagre.
- Quantas dessas pessoas eram dentistas?
- Nenhuma. Mas, elas arrancaram dentes do siso.
- E quantas delas arrancaram comigo?
-...
- Bom, chega de papo. Vamos! Pode deixar sua bolsa aqui e sente na cadeira.
- Posso trocar minhas meias antes?
- O quê?
- É que eu vim a pé e minhas meias se molharam com a chuva. Posso?
- Sim. Fica à vontade.

Peguei a bolsa, passei pela sala de espera toda azul e bem decorada com vaso de flores e tudo e cheguei até o banheiro. Troquei minhas meias e parei. Pensei em ir embora de lá mesmo, não queria arrancar o dente. Mas, seria mancada com ele.

Ele era Flávio. Cabelos enrolados e castanhos, olhos combinando com o cabelo e covinha no queixo, além dos braços que insistiam em se fazerem vistos dentro da camisa.

Tinha jeito de ator, desses que gostam e fazem bem papel de malandro conquistador. Isso tudo não combinava com dentista. Achei que era melhor não confiar. Mas, a lembrança de suas palavras me fazia acreditar que ele realmente era dentista. E porque não dentista e ator? Quem sabe eu também não seria atriz e teria o papel da mocinha que ficaria com o dentista no final?

Manga

Tem
Gosto de menina
Tem
Cheiro de mulher

Tem
Variados tons
Tem
Suculentos sonhos

Tem
Um pouco de Bahia
Tem
Necessidade de boca

Tem
Que se lambuzar, lá no meu quintal.

Pelos pés

Neste mês, estou me recordando de como passei a reparar nos gestos das pessoas e nos meus e como isso virou mais uma obsessão na minha vida.

No começo, era preciso esforço e muita concentração para perceber o que um gesto queria dizer. Foi difícil, porque eu era novo na vida.

Com o passar do tempo, comecei a perceber como eu me comportava, o que eu fazia com os pés, com as mãos, com as pernas, com os braços, com a cabeça, quando eu sentia algo.

Quando eu estava impaciente, com pressa, sempre batia incessantemente a ponta dos dedos na mesa e nem sabia o porquê. Era automático e inexplicável.

Quando eu entrava no metrô, comecei a reparar que meus pés sempre apontavam pra menina mais gostosa do vagão.

Foi nessa que comecei a reparar nas mulheres que tinham seus pés apontados pros meus, a olharem com olhos de pimenta malagueta.

Imagem Noturna

Senti cidade apagada regada pelas estrelas.

Sentiu o dente com chocolate.
Sentiu o gelado do nariz na língua.
Sentiu o levitar da mão sobre as coxas.
Senti as unhas vermelhas na nuca, assim.

Carta de Amor

Querido Nelson, diferente de todas as outras cartas, não vou perguntar como você está nem comentar as notícias que você me mandou pela última carta que recebi aqui na prisão.

Hoje, nesta carta, vou lhe falar sobre mim, sobre o que estou sentindo e sobre meu amor. Creio que você também deve sentir a minha falta, assim como eu sinto a sua falta, sua ausência e saudades suas.

Todo esse tempo aqui me fez refletir sobre nossa história. Começamos como conhecidos, naquele dia 1º de janeiro e no dia 12 de junho éramos namorados.

Tivemos momentos inesquecíveis e beijos intermináveis que nem com mal de Alzheimer eu esqueceria.

Pois é, mas esbarramos na legislação. Nossa diferença de 9 anos não permitiu que nosso amor continuasse fato, agora é mais lembrança.

Espero que você, hoje, continue com o mesmo brilho nos olhos de 10 anos atrás, quando você tinha 14 anos.

Agora só faltam 5 anos, 2 meses e 3 horas pra eu sair.

Não peço que me espere, mas se você quiser não passe vontade.

Sua Juliana

Sexo

Serpente, sabiá e seiva.
Sorriso, sensação e sol.
Sopro, sementes e seios.
Sussurro, semblante e lençol.
E você.

Trilogia das Cartas

Carta ao meu pai

Pai, tenho algo para te contar, mas não tenho coragem de dizer pessoalmente. Estou com tanto medo da sua reação que demorei dois meses para conseguir terminar essa carta. Então, decidi deixá-lo ciente do fato já que percebi que não há outro jeito e preciso da sua ajuda.

Bom, estou dizendo que decidi contar a respeito de um fato que pode e vai mudar nossas vidas, que é irreversível e que requer muito, mais muito cuidado e atenção.

Eu me lembro que desde pequena, posso me lembrar como se fosse hoje, você sempre dizia que devemos tomar cuidado com nossas atitudes pois um simples deslize pode ser fatal, a ponto de mudar toda a vida de uma pessoa e isso foi meu lema: não errar a ponto de desapontá-lo. Sempre pensei nisso em toda minha vida.

Mas, às vezes, a gente acaba se distraindo e as coisas acabam acontecendo.

Pensei em pôr a culpa na outra pessoa envolvida nisso também, mas também faço parte desse erro. Pensei em usar também um fato igual que aconteceu na sua vida, mas você não sabe que eu sei, mas eu sei sim.

Bom, estou chegando ao fim da página e ainda não lhe contei.

Pois é, chegou a hora. Mas antes, promete não me expulsar de casa?

O que? Ficou em dúvida? Vai depender do que for?

To com tanto medo, Pai. Decidi. Ainda não vou te contar. Quer dizer, estou pensando na próxima carta, nela eu conto.


Carta ao meu namorado

Meu amor, estou passando pro papel uma notícia que te deixará confuso, no mínimo. Não confuso pela veracidade do fato ou da legitimidade da sua condição e do seu papel nessa situação. Sei que você confia, sempre confiou e sempre confiará em mim.

A questão é que assim como eu, você ficará confuso, pois ainda não estamos preparados para o que será daqui pra frente. Estou grávida. Fiz o teste de farmácia, mas tenho certeza absoluta. É quase vidência.

Mas, o problema é você sabe. Além de desempregados, morando com os pais e muito baladeiros, não sabemos o que é ser pai e mãe. Vai ser mais difícil do que já imaginávamos porque agora é verdade. Sim, estou grávida.

Agora que você já sabe, vem aqui em casa porque meu pai já me pressionou devido a minha tentativa primeira de contar pra ele, por carta, mas não consegui. Vem logo.

Te amo.


Carta ao meu amante

My Darling, to grávida. Aquele anticoncepcional deve ser de farinha mesmo.
Bom, vou te colocar a par da situação: meu pai quase me matou, mas não me expulsou de casa. Que bom!
Meu namorado acha que é dele.
Quanto a você, to passando aí na sua casa hoje a noite, você sabe bem pra quê.

Te amo.

Vida de Atroveran

Era uma vez um comprimido que não era pílula, mas era mulher. Seu nome de batismo era Atroveran, prima do famoso Doril.

Quando criança, Atroveran nem sabia o que era menstruação e já vivia na tensão que é estar num daqueles dias. Toda vez que alguma mulher tava de TPM, já chamavam:
- Atrô, cadê você? Vem aqui ajudar sua mãe que tá com cólica de novo.
- Caramba mãe, todo mês é a mesma coisa. Tenho que ficar com você até a dor passar.

Essa vida de aliviar mulheres cansava muito Atrô e um belo dia ela resolveu fugir de casa e também mudar de nome, em busca de sua tranqüilidade. Mas, Atrô esbarrou na burocracia e não quis esperar 10 anos para mudar de nome. A solução foi ir a busca de uma terra onde nenhuma mulher tem TPM e reine a paz.

Pois é, vai procurar bastante, mas boa sorte.

Sonho de Valsa

Amigas, brigas, baladas, finais de semana, trabalhos acadêmicos, professores, apelidos, medos, notas 10. Brigas, inimigas, duplas, profissionais, amigas, semanas, meses, fim de ano, tcc, cliente, ano novo, sonho de valsa, garoto, chocolates, notas 10?

Ainda não sei.

Sonho

Era um casamento entre duas pessoas que se viam todos os dias.
Chuva e sol com viagens e muitas brigas, que levaram a uma grande idéia: construir uma aeronave para vender cheeseburger a um real. Depois do cheeseburger, os dois descobriram juntos a cura do câncer.

Um dia em uma praça, encontraram muitas pessoas reunidas para brincar de pega-pega e esconde-esconde. Brincaram com estas pessoas até a noite e ficaram com medo do escuro.
No dia seguinte, disputaram a Corrida de São Silvestre, e usaram patinetes quando chegaram à Brigadeiro Luis Antônio.

No dia seguinte, foram para a Bahia e colocaram flores no túmulo do ACM. Depois pularam o Carnaval, atrás do Trio Elétrico e chegaram à casa da bruxa do João e Maria.
Lá encontraram o Saci e descobriram que suas roupas tinham mudado e agora eram crianças que faziam trabalhos escolares pra faculdade.

De tarde, viram muitas pessoas juntas brigando por água numa Nova York devastada por bolhas de água ácida.

À noite, pularam numa piscina de Aquarius Fresh e depois se secaram com toalhas brancas, sentindo o aroma de manga que vinha de uma auto-estrada com um Peugeot vermelho e com um tiozinho narigudo na porta como chofer.

Receita de minh'alma

Rosto e lágrimas escondidos na saia Marrom,
Chuveiro queimado em manhã de Inverno,
Cicatriz a latejar em manhã Nublada,
Hora h que nunca Houve,
Chuva ácida que abortou o Amanhã,
Dez centímetros que sempre se fizeram Longe,
E-mail antigo na Minha caixa de entrada,
Dor que ressoa na supressão do Amor pelo
[Apóstrofo suprimido no teclado do computador].

Meu primeiro mar

Um pensamento longo me cobria toda vez que chegava o fim do ano “queria tanto o mar”.

Passei muitos dezembros querendo o mar e querendo o mar sozinha, porque pra todos os outros lá em casa, ele não era querido.

Até o dia em que decidi, a convite de uma amiga, me encontrar com o mar.

Quando cheguei em casa com a notícia, todos me olharam com um ar de “mas pra que ver o mar?”, porém não disseram não.

Pensei em persuadi-los de que o mar não era pra ver e sim pra querer, mas desisti pois o que eu mais queria, iria acontecer e fui.

O encontro com o mar foi bem a noitinha, com céu estrelado e brisa.

Eu olhava paralisada a imensa infinitude que eu nem imaginava tão sem fim.

Senti minhas pernas tremerem quando ao me aproximar mais, uma onda se formou e veio grandona na minha direção. Tive medo e uma grande excitação, de não saber se eu corria pra frente ou pra trás.

Fui batizada por essa onda do meu primeiro mar.