O cheio e o vazio

Como todo esbarrão pode render uma boa crônica, comecei a reparar nos esbarrões que vivem acontecendo em supermercados.

Os carrinhos cheios de mercadorias sempre vão de encontro à outros carrinhos e também às pontas de gôndolas. Porém, eu via o espetáculo se formar realmente quando um dos carrinhos acertava sem maldade uma das três mil, duzentas e setenta latinhas de cerveja de uma pilha no maior corredor do mercado em que trabalhei por dezesseis dias. A cachoeira escorria até o chão, formando uma pequena poça de água com um pouco de espuma.

Toda vez que isso acontecia, o desenrolar era sempre o mesmo. Um funcionário do setor de bebidas ia até o balcão de atendimento, onde uma moça de modos e aparência incomuns, além de uma voz que não parecia sair dela, interrompia a música e anunciava pelo microfone que uma letra e um número juntos deveriam comparecer ao setor de bebidas. Rapidamente, a moça da limpeza aparecia para secar a poça e tudo voltava ao normal. Até outra latinha ser acertada. E isso vivia acontecendo.

Detalhe, esses carrinhos que esbarravam nas latinhas não eram de clientes, eram dos rapazes que passam o dia enchendo as prateleiras enquanto os clientes as esvaziam, que, por sua vez, enchem os carrinhos de compras para depois esvaziá-los, enchendo o carro com as sacolas brancas, para depois esvaziá-las em casa, enchendo o armário, para ao longo dos dias, esvaziá-lo e ir novamente ao supermercado, nesse ciclo de vida do cheio e do vazio.

As prateleiras nunca ficam completas por mais de um minuto e os funcionários do supermercado vivem dessa tarefa constante de enchê-las. Repetem todo dia os mesmíssimos movimentos e sempre esbarram nas pilhas de cerveja por puro descuido de quem trabalha há sete anos no mesmo supermercado, na mesma função, colocando os dias num piloto automático, mal vendo a hora de ir embora.

1 comentários:

akira sanoki disse...

A poética da escrita é algo bem particular, penso em como poderia se transportar essas mesmas informações e sentimentos para uma midia audiovisual... essas coisas q acontecem ao mesmo tempo ao serem narradas se faz na cabeça de cada um de uma maneira própria, isso q se perde ao filmar e mostrar uma mesma maneira de se ver para todos.